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Categoria: Crônicas

Nasceu uma flor no asfalto

Às vezes sento-me nesta cadeira para escrever, trazer algo à luz mas nada acontece. Divago em um ou outro pensamento, mas não encontro nada sólido, firme, concreto. É como tentar se apoiar em uma parede que não existe. Me sinto envergonhado como um cachorro latindo no portão para carteiros imaginários. E isso, para alguém que quer escrever, amigo, é o fim. É pior do que encher a cara em algum boteco chinfrim por causa de amor. É muito mais doloroso do que colocar uma camisa e ela não servir porque sua barriga cresceu.

Tentando encontrar o porquê desse manancial ao contrário, me pergunto se a minha falta do que escrever não tem começo em minha falta de literatura como leitor. Ultimamente não tenho lido nada de literário: alguns livros técnicos relacionados à minha profissão e sites aleatórios não são propriamente o que Guimarães Rosa deveria ler antes de escrever veredas do grande sertão.

Oras, assim como quem faz exercícios e tem um corpo saudável, como posso ter um bíceps literário como o de Machado de Assis se sequer seguro um livro para ler?

E quando me ocorre de sentar e escrever, são brilhos momentâneos, raros, assim como a porra de um cometa Halley. Um dia escrevendo são noventa e dois sendo frustrado não escrevendo nada. Essa falta de consistência não deve existir para quem paga boletos vivendo de sua literatura…

Além disso, como posso tentar escrever se não presto atenção no que está em volta? Se não presto atenção no crente que trai a esposa, o mototáxi que chuta o cachorro de rua, o presidente que vende informações secretas para a Rússia, a sogra que malogra o genro, vou escrever sobre o que?

Desculpa amigo, mas não vou chegar ao nível de escrever sobre o sentido da vida.

Acho que as coisas estão melhorando, pois esse texto nasceu ao escrever da minha falta de textos como esse.

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